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terça-feira, 14 de julho de 2020


Eu vi Maria Maria.
Eu a vi ontem de dia.
Ela vinha veloz, voava.
Eu a saudei. Ela a mim.
E seguimos nossas vias.

Qila Nobre - 2017

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Afluentes

floresta de pelos
no travesseiro
colchão encardido

cílios flutuam
são polens
na manhã sem janela

pentelhos vagueiam
são fiapos
na procissão das formigas

(pausa doméstica)

ando farta
de comer o mundo
tenho festas
na esquina do silêncio
faço cestas

tranço fios de esquecimento


andas farto
de sorver os desencontros
cambaleias
na viela do receio
trazes mate

fazes combustão da dor


varar (n)a madrugada:
existir é rota de colisão

+Daniela Galdino

Barco

você descasca
cenouras
para a salada
que não comerei

(Villa-Lobos na tv)

eu falida de verbos
sentada
à beira da tarde
costurando ruídos

(Villa-Lobos na tv)

nesta primavera
de fugas
bendita nossa fome
o resto é tormento

+Daniela Galdino

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Coisas de mim

Não sou santa
E nem sou Puta
Sou mulher!
Teia, aranha
cama de gato
Armadilha do diabo
Fogo,aço,terra ,céu.
Minha saliva é como mel e Própolis
Minhas cores é "arco" íris
Maré Oxum ,Azul do mar.
Não sou santa
Nem sou Puta!
Sou a voz que de mim ecoa
Raiz,tronco,Bambuzal
Argila,Tupinambá
Teatro, vida real
Sou ariano torto que na ventania
Enverga mais não quebra.
Sou
A
Free
Ka!

[AnneSilva]

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

"Tá aí uma verdade sobre a liberdade. No horizonte europeu ela ganhou a qualidade liberal do espírito universal e burguês, enquanto nosso povo estava apenas resistindo à morte e à escravização. O sentido de vencer pro nosso povo nunca foi de vencer só, mas de vencer em um todo."

 - gabriel nascimento -

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Novos Poetas da Região Cacaueira (1982)

parte IV

Vou
e não quero que saibam
aonde sou.
Sigo
e não quero que digam
por onde sevo seguir.

Quero ver
não me deem olhos
Quero pegar
não me deem mãos
Quero sentir
não me deem sentimentos
Quero tudo
não me deem nada.

Não
não quero engenheiros nem arquitetos,
nem planos, plantas ou papeladas.
Não quero máquinas de terraplanagem
nem quero pontes sobre os meus rios.
Não quero carros nesta viagem
nem quero barcos no meu mar.
Não quero lâmpadas neste caminho.
Nem quero túneis transpondo os montes.
Não quero companhia, devo ir sozinho
nem quero palavras, quero ir calado.

Vou neste meu caminho
nele existe: tudo e nada.
Vou descalço pisando espinhos,
tropeçando em pedras me agarrando em nada.

Sei que um dia chego
Mas não sei o dia da chegada
Caminho e às vezes cansado penso
em parar e canso mais na parada.

↠↞

Ando...
e pela rua, meu olhar
cruza os olhares
e minha vista se perde
na vista que me oferece
a rua.
Sigo em meu andar lento
e meu olhar já não cruza
os olhares à minha vista.
ah!
A minha vista.
Onde está a minha vista?
A minha vista se perdeu 
na vista que me ofereceu
a rua.

[Hermes Simões - Itabuna]


UM RARO MOMENTO COLORIDO
quem sabe
amanhã de manhã
o pardal vai cantar
no fio elétrico
que passa perto
de minha janela
e eu vou-lhe fazer coro
assoviando minha felicidade?

[Jane Kátia Mendonça - Ilhéus]


POSSE
nada tenho
nada tive
nada terei por certo
ter
é uma posse
de muita responsabilidade

DECISÃO
hoje 
quero tomar
champanhe
com todos meus amigos
e sorver amor
na mesma taça
hoje
eu quero abraçar
todas as mulheres
que ousaram atravessar
o tempo
e diminuir 
o medo da morte
hoje
quero banhar-me
em rosas
enxaguar-me em narcisos
e secar naturalmente
na corola macia dos lírios.

[Maria Antonieta Mota - Salvador/Itabuna]

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

realizar-me!

E paro o tempo quando quero reiniciar-me.
Tenho de paralisa-lo se quero alcançar meus pensamentos!
Realmente o tempo corre.
De tão veloz não vejo a que direção.
Meus sonhos insistem em acompanha-lo
E cansado estou de correr contra o tempo...
Mas recuso-me também a correr com ele!
Envelhecer-me por esta busca?
Rejuvenescer-me a cada luta!
Já não são mais os dias como os tempos de outrora.
Mas todos os dias há uma nova aurora.
Disse-me a Lua "mudarei a ordem das marés, reviverás de outra forma".
Não espero mais por um tempo preciso.
Mas espero o tempo que for preciso...para realizar-me!

[Francis Paixão]

domingo, 14 de janeiro de 2018

Novos Poetas da Região Cacaueira (1982)

parte III

FOTO-GRAFIA
Perdi minha foto
e a grafia das palavras
Busco a imagem
e as ideias...
Fui caçada
tolhida
camuflada...
Ganhei bagana
esmola
e uma maçã.
Ganhei o som
o grito
e uma mordaça...
ou o negativo da foto
e o invisível da grafia
Sou...

LIBERTAR-SE
Como se fosse
alimentar-se
da réstia de sol
do raio pequenino
da lus colorida...
Como se fosse
saciar-se
do pedaço de céu
do sentimento rasgado
de tocar as estrelas...
Como se fosse
libertar-se
das celas invisíveis
das correntes inquebráveis
desse tempo prisioneiro...
...a gaivota bateu asas
varreu o espaço
do seu grito sufocado
alcançou  horizonte
e o seu último voo...

ANGÚSTIA
Minha angústia vem
do meu tédio cotidiano
do mecanismo de escritório
das mesmas luzes
do centro artificial
do meu chão.
Minha angústia vem
dessa limitação que canta
um canto triste
como o sabiá...
vem do que reclama
e clama
vem do que chora
e floresce no sorriso
de amanhã.
Minha angústia
vem de minha hora
não marcada no tempo...

[Genny Xavier - Caitité/Itabuna]

A CAIXA DE FÓSFORO
Com a caixa de fósforo na mão
parou, sem saber ao certo
se queria compor um sambinha
ou acender um cigarro

Fez um esforço de memória
e não conseguiu saber.
Procurando afastar pensamento incômodo,
deu de ombros e prosseguiu seu caminho.

De repente,
parou novamente, angustiado.
Lembrou-se que trazia um pandeiro,
e não tinha cigarros.

FRATERNIDADE
Na mão,
apenas uma flor.
No coração,
o desejo profundo
de estender milhares de mãos
ofertando flores.

HIERARQUIA
No fim da tarde,
esperando ver acenderem-se as estrelas,
sou grato á penumbra
que retarda o quanto pode
a minha contingente obrigação
de acender as lâmpadas.

[Gil Nunesmaia - Ilhéus]

domingo, 7 de janeiro de 2018

Novos Poetas da Região Cacaueira (1982)

parte II

OS DIASAssim perdemos os sábados.
Deitados ficamos como um relógio imóvel
enquanto o tempo passa.
O tempo, impiedosa
fera, nunca espera
que se dê o último retoque
nas vestes.
Assim perdemos os dias.
Salvar a vida é segurar as horas.
Saltar de pé e acompanhá-las,
desnudo embora.  
CONSTRUÇÃOPalavra sobre palavra
levantarei o poema.
Levarei até às nuvens
asas e silvos deixados
por aves que me habitavam.
Pena sobre pena
pois construí-lo é mais
que contemplar o vário
e deitar-se ao largo.
Porém, seu contrário.
Palavra sobre palavra
lavrarei sua áspera
couraça de silêncio
mesmo que o tempo o destrua
como qualquer pedra. 
CIÊNCIAComo saber se é tarde ou manhã
quando as horas se evolam
nesse búzio imóvel
que nunca responde?
A poeira do mundo
invade a vida e convivemos
num formigueiro
que nos consome.
Como saber o que se esconde
se somos homens?
Apena sabemos
a falta, a fome. 
QUIMERAcheirar hálito
quente da manhã
caminhar sobre
arco-íris, levando
solidão nos bolsos,
sorrisos nos pés
e ressuscitar assim
a velha primavera:
solúvel quimera. 
GRITO DE POESIA quero a poesia
memória do meu tempo
grito de todas as dores
na boca do mundo esfarrapado
em trapos de amor
entre muros. 

[Carlos Roberto Araújo - Ibirapitanga]

sábado, 4 de novembro de 2017

Novos Poetas da Região Cacaueira (1982)

parte I

Venho buscar a justiça
Acender uma tocha
Tirar dos meus versos a certeza
concreta, humana e
sem mentiras
do que resta. 
 
É de sangue e coração
esta denúncia sem sol nem glórias
e tão apaixonada. 
É de incertezas e lágrimas
a estrada desses que falam de amor
e caminham sozinhos. 
É triste e amaldiçoada
a morte dos poetas que caem,
tombados. 
É infinita, secular e certa
a ressurreição dos fortes
numa cerimônia democrática.
[Antônio Júnior - Itabuna]

MOMENTO 
Busquei um lugar de paz
construído na crença do HOMEM,
preservando assim o sonho dos iniciantes
que possuem olhos utópicos.

Falhei!

O HOMEM não persiste na luta,
o lugar de paz não existe,
o sonho foi a única realidade aprendida: é UTOPIA.
E eu permaneço como sempre: só!

INDAGAÇÃO
Por que não me avisaram que os homens partiram?
Por que não me disseram que a partida é exigência primordial do viajar?
Por que não me contaram que os homens morreram?
Por que não me acordaram para ver a barca naufragar?

Por que?
Por que não?

Por que não me amaram?
Por que vieram me dizer que o meu trem de ilusões partiu?
Por que vieram em contar que meu carrossel de lembranças quebrou?
Por que me disseram que minha infância morreu?
Por que me explicaram que minha adolescência cresceu? 
Por que me ensinaram que a saudade é coisa do passado?
Por que me vaiaram quando eu perguntei pelo Amor?
Por que me crucificaram quando eu preguei a Amizade?
Por que me cuspiram quando eu lhe chamei de Amigo?
Por que correram quando eu abri os braços em abraços?
Por que fecharam portar quando eu perguntei por Caridade?
Por que taparam os ouvidos quando eu falei em Solidariedade?

Por que?
Por que gritaram num coro Realidade?

[Ana Virginia Santiago - Ilhéus]




quarta-feira, 27 de setembro de 2017

93/365 - Jó Rodrigues

"Saber que se eu atravessar este minuto sempre poderei me matar no próximo torna possível atravessar este minuto sem ser totalmente destruído por ele. O suicídio pode ser um sintoma da depressão; é também um fator que a suaviza. A ideia do suicídio possibilita atravessar a depressão."

sábado, 2 de setembro de 2017

fb.com/poetainverso - Jão Paulo Costa Souza

# Amendoeira
a amendoeira marota
balança, balança
em passos verdes
no salão do vento
que bela dança
envolta pela brisa
que cheira à maresia
brisa úmida,
morna, macia
amendoeira verdejante
dê-me sua sombra
ao meio dia
dê-me seu tronco
onde quero me encostar
e assoviar aquela música
enquanto admiro o mar

# Hiato
Por não ter
Sou grato
Mas, espero
Que na gratidão
Dos meus atos
O meu desejo
Seja de fato
Considerado
E que desvie a minha vontade de viver outra vida, 
fazer o que eu realmente amo, 
o que eu realmente quero fazer, 
desde que entrei nesse hiato
Preciso sentir o cheiro
Que exala dentro do mato
Aroma suave que vive,
Acaricia o meu olfato
E me faz sentir livre

#26
vira flor todo dia
se veste bonita
e vira flor
sapato amarelo e branco
de margarida
frascos de tinta
e se enfeita
se perfuma toda
se pinta
desenha na pele
insiste, se fere
e acredita
queria que ela soubesse
que enquanto tenta virar flor
por fora, assim
o que eu vejo nela
por dentro
é um belíssimo jardim

#4
refletida no espelho
Daqui te vejo
tão forte
O meu desejo
não quero
Só um beijo
na mente
Te despejo
não quero
Ser seu dono
me inspira
O abandono
e me deixa
Sem sono
se lhe tenho
Lhe como
mas, não tenho
Então, sonho.

#1
A madrugada é fria
Frios são meus sentimentos
A noite é calma
Calma como meus pensamentos
Pros vivos, a alvorada
Pros desesperados, a madrugada
Não quero mais
Nem por um momento
Expor os desajustes
Que tenho por dentro
Minhas palavras são como vísceras
Se expostas, são nauseantes
Pedaços repugnantes
De uma mente inconstante
Sobre pernas errantes
Prefiro que apodreçam
Aqui por dentro
E, como carcaças sobre a terra,
Desapareçam com o tempo


segunda-feira, 31 de julho de 2017

46/365 - Jó Rodrigues

"O suicídio não deve ser ligado necessariamente a um "fracasso": continuar vivo pode comportar o maior envilecimento, a negação de todo heroísmo, e o fato de um homem suicidar-se não prova, em absoluto, que "seu projeto de vida era errado" etc. Uma morte pode ser uma consumação, um profundo triunfo, uma plenitude, uma iluminação, um estalo interior, uma irreprimível alegria."

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Das Vantagens de Acreditar

A paranoia deforma
E cria monstros imaginários.

A obsessão prende
E causa perseguição de nadas.

A insegurança atrofia
E paralisa qualquer melhoria.

Confiar em quem amamos
Evita perdas e danos.

- Qila Nobre Santos -