Apesar de me sentir debaixo de uma chuva de remorsos, me mantive teso penhasco, pendúculo sem flor, escondendo, por trás da epiderme transparente, fraturas expostas numa bandeja cirúrgica estendida como uma cuia à existência. A ideia da morte pesava como um território onde predominava o silêncio, e que para alcançá-lo tornava-se necessário se submeter a um trajeto desconhecido, a transformar a vida em algo destituído de ilusões, um camelo de batalha fatalmente perdida. Amanheci ali mesmo, de mãos postas, desolado ante uma garrafa de cerveja, morna, pela metade, um copo vazio e minha gula sobreflutuando algumas rodelas de linguiça. Senti um sufocante gosto de bosta na boca! Meio dia! Como combinado, estava pronto a seguir o plano traçado por Monet. Como um bate-estaca sonâmbulo e serelépido, me recompus para o ritual. Além da marquise, tal qual uma pestana orvalhada, a avenida de mão-tripla gemia aos afagos dos pneus das baratas Metálicas e Gafanhotos Plásticos dirigidos por espécies de antropoparafusos. Doutrolado da avenida, milhões de vidas embrulhadas por prédios sentados, quadrados, disformes, de cujas janelas se precipitavam arregalados piscantes olhares. No seu canteiro central, no espaço reservado às floreiras, vários sacos de lixos rasgados pelos impactos de um vento frio e forte, exibindo, através dos furos semelhantes a feridas insaráveis: latas de suco e doces, sombras de lábios em guardanapos, seringas, pedaços de TV, luminárias inúteis e caixas vazias. Pelas calçadas, Morcegos e Ratos enrolados em gazes passavam como autômatos de carne e ossos. Aos pés dos prédios, doutrolado da avenida, um out-door chama uma daquelas baratas de “novo membro da família”. Por um instante pensei em recolher minha sombra pisada e ignorada pelos transeuntes entre as mesas, onde algumas Lagartixas classe médias falavam de política e concordavam com tudo. Dois garçons compunham um ballet como duas mariposas tontas. Sentia-me ora amarrado a uma cadeira elétrica, ora como um corpo a espera de reconhecimento numa ante-sala de dilaceração. Instintivamente, por um momento, debrucei-me, sem nenhum interesse, sobre um jornal amarrotado, do dia anterior, que Monet deixara sobre a mesa. No piso sujo, ainda viva, a ultima cusparada de Monet, como uma chaga norteando o seu caminho e o meu. Mesmo pensando que tudo caminhava irreversivelmente para a morte, havia uma expectativa de que algo desviasse o rumo dos acontecimentos. Mas, logo aquela mistura de medo e esperança se desfez com aquele entardescer.
- Arnaldo Xavier -
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quarta-feira, 10 de junho de 2020
segunda-feira, 17 de dezembro de 2018
Nostalgia Cinza
Final de tarde, o tom rosa alaranjado colore o céu. Na varanda, seu Antônio, ou só Tonho para os mais chegados, prepara e fuma seu cigarro de tabaco e nostalgia. Lembrou dos sonhos que marcariam pra sempre sua vida mas que nunca se realizariam. Percebeu que não foi mais triste por isso, nem menos feliz. Talvez fosse triste reconhecer o quanto estamos controlados e limitados e por isso não conseguimos alcançar os objetivos mais íntimos, por serem imorais, proibidos ou caros demais. Mas foram anos muito bem vividos. É possível se moldar a novos gostos, mais reservados e aceitos. É possível ser feliz tendo o que não havia sido desejado, mas que foi acolhido de muito bem grado. Percebeu coisas que outrora consideradas importantes, não eram tão importantes assim e como as nossas prioridades mudam, gostos, opiniões e afins... Amou outras mulheres lindas, inteligentes e meigas, que não eram o amor da sua vida. Sonhou com paraquedismo, mas jogou futebol na praia todos os domingos, que não era seu esporte preferido nem tão desafiador e emocionante quanto, mas fez vários amigos. Seu maior desafio foi viver sem frustrações com o que tinha conseguido e tomado de emoções pelo caminho percorrido. Enquanto a fumaça se dissipa por sua silhueta, sentiu saudades do que viveu e do que também não aconteceu. Era tudo tão parte dele, como o sangue correndo nas veias e os desejos escoando de sua alma, que o faziam mais maduro e vívido. Sem esperar muito e se esforçando mais ainda, sua felicidade era o alto nível de satisfação que conseguira. Ele sabia, sua rotina de fumante já havia lhe ensinado: contentamento ou sofrimento, no fim só restam as cinzas.
finais felizes que não tive #1
finais felizes que não tive #1
segunda-feira, 21 de maio de 2018
“Ela tem asas, mas em parte alguma pousa”
“Ele foi embora”, pensou.
Ela, tão cheia de dignidade, tão irônica e segura de si, suplicara- lhe que ficasse, com tal palidez e loucura no rosto, que das outras vezes ele acedera. E a felicidade invadia-a tão intensa e clara, que a recompensava do que nunca imaginava fosse uma humilhação, mas que ele lho fazia enxergar com argumentos irônicos, que ela nem ouvia.
Ele voltaria, porque ela era a mais forte.
[trechos de O triunfo, Clarice Lispector]
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