terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

The Crystal Ship - The Doors

"Antes de você 
cair na inconsciência
eu gostaria
de outra chance 
fugaz de êxtase 
mais um beijo,
outro beijo

Os dias são iluminados
e cheios de dor,
envolva-me 
em sua chuva gentil.
Nós nos encontraremos
de novo

Diga-me 
onde sua liberdade repousa.
As ruas são campos
que nunca morrem. 
Liberte-me 
das razões pelas quais 
você prefere chorar,
eu prefiro voar. "

Não sei dar títulos nem imaginar nomes

às vezes tem conteúdo
às vezes não
às vezes faz sentido
às vezes não
às vezes é bonito
às vezes não

paro e penso
penso e repenso
repenso e é tenso

nunca é suficientemente bom
ainda assim
nem tão ruim

sempre tem
essa insegurança vestida de confiança
que no receio do impulso se lança

falta vínculo
forma e graça
é uma desgraça:

não sei dar títulos.
mas quem se importa com isso?

solitude

adoro um amor inventado
não necessariamente vivenciado
assim platônico,
irônico
e idealizado

um amor icônico
feito julieta e romeu
e o meu exílio
é uma forma de suicídio
do romance que ninguém leu

como se no breu
em meio a neblina
quando atingida por um torpor
me finjo dispersa
para não sentir dor



sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

bucolismo

Individualistas e egoístas
Assim fomos ensinados a ser
Depressivos e sofridos
É assim que estamos
Vigiados incessantemente
Controlados passivamente

Estendi a canga na sombra de uma árvore
À frente, Focault me convence de sua loucura
Ao lado, amigáveis universos em crise
Sonhando junto com o caos e pensando junto na esperança
O ar rarefeito indica a necessidade de se buscar a paz
Evitando a normalidade das prisões visíveis e invisíveis
Do constante estado de vigilância
E o medo impregnado da punição

Derrubaram o avião
Muitos questionam a capacidade de assassinato
Brigam, se ofendem, doidos hipnotizados
Por genocidas e outros exploradores de pecado
Derrubaram o avião
Assim como derrubaram outros aviões
E outros governos só para atrasar a queda de um sistema
ineficaz que finge ser solução quando é todo problema

Hoje eu quero permanecer pacífica
Não vou lutar numa guerra que não é minha
Mergulhar na represa
Receber um beijo solar na minha testa
E uma lambida do vento na minha face
O corpo arrepia, a retina brilha
O pensamento tranquilo não acompanha o coração irrequieto
Estar assim é o certo do incerto
Um inseto marronzinho miudinho pousou no meu dedo
Depois voou.

Das Vantagens de Acreditar

A paranoia deforma
E cria monstros imaginários.

A obsessão prende
E causa perseguição de nadas.

A insegurança atrofia
E paralisa qualquer melhoria.

Confiar em quem amamos
Evita perdas e danos.

- Qila Nobre Santos - 

sábado, 3 de dezembro de 2016

Loucos e Santos (Oscar Wlide)

Escolho meus amigos não pela pele
ou outro arquétipo qualquer, mas pela pupila.
Tem que ter brilho questionador
e tonalidade inquietante.

A mim não interessam os bons de espírito
nem os maus de hábitos.
Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.
Deles não quero resposta, quero meu avesso.
Que me tragam dúvidas e angústias
e aguentem o que há de pior em mim.
Para isso, só sendo louco.

Quero os santos, para que não duvidem
das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.
Escolho meus amigos pela alma lavada e pela cara exposta.
Não quero só o ombro e o colo,
quero também sua maior alegria.
Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto.
Meus amigos são todos assim:
metade bobeira, metade seriedade.

Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.
Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade
sua fonte de aprendizagem, mas lutam
para que a fantasia não desapareça.
Não quero amigos adultos nem chatos.
Quero-os metade infância e outra metade velhice!
Crianças, para que não esqueçam o valor
do vento no rosto; e velhos, para que nunca
tenham pressa.

Tenho amigos para saber quem eu sou.
Pois os vendo loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que 'normalidade' é uma ilusão imbecil e estéril.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Colam-se corações partidos

não oferecemos o amor da sua vida
nem um relacionamento sério duradouro
nem desilusões disfarçadas de planos

não queremos que crie expectativas
nem que sonhes acordada pra depois, com dissabor,
ficar se perguntando se tudo aquilo vivido teve real valor

picolé de chocolate com pedaços pra sarar essa febre romântica
oferecemos cafuné e conversas bobas ao pôr-do-sol
tem brincadeiras pra rir e pra suar o lençol 

se sua dor diminuir com essas andanças
acompanhamos em caminhadas pela praia
ou num xadrez na mesa da praça

viajamos por lugares rotineiros
vivemos de meros devaneios
dançamos no ritmo do vento

dançamos no cair da chuva
tomamos banho de mar
também nos banhamos sob a luz da lua

rimos de piadas que não tem graça
contamos outros causos em desgraça
pra te ver sorrir, vale qualquer palhaçada

quando se sentir melhor, é aí que viramos pó
compromisso é responsabilidade demais
não se promete aquilo de que não é capaz



quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Pensei

Que querias tanto quanto eu e
Que serias todo o meu querer
Em um só ser

Senti
Que podia confiar nesse querer
Que podia me entregar a você
Sem me perder

Sonhei
Com um amor recíproco
Não só no sentimento de querer estar junto
Mas no fazer acontecer estar junto e estar bem

Me equivoquei, meu bem.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

"Eles têm razão,

essa felicidade
ao menos com maiúscula não existe.
Ah, mas se existisse com maiúscula
seria semelhante à nossa breve pré solidão.
Depois da alegria a pré solidão,
depois da plenitude vem a solidão,
depois do amor vem a solidão.

Sei que é uma pobre deformação,
mas o certo é que nesse minuto duradouro
nos sentimos sós no mundo,
sem ocasiões,
sem pretextos,
sem abraços,
sem rancores,
sem as coisas que unem ou separam.

E nessa única forma de estar só
nem sequer nos apiedamos de nós mesmos.
Os dados objectivos são como seguem:
há dez centímetros de silêncio
entre tuas mãos e minhas mãos,
uma fronteira de palavras não ditas
entre teus lábios e meus lábios,
e algo que brilha assim de triste
entre teus olhos e meus olhos.

Claro que a solidão não vem só,
se olhamos sobre o ombro triste
de nossa solidão
se verá um largo e compacto impossível,
um simples respeito por terceiros e quartos
esse transtorno de ser boa gente.

Depois da alegria,
depois da plenitude,
depois do amor
vem a solidão!

De acordo,
mas que virá depois
da solidão?

Às vezes não me sinto tão só...
se imagino
melhor dito, sei
que além da minha solidão
e da tua
outra vez estás vós
ainda que perguntando-me a sós
que virá depois da solidão?"

- Mario Benedetti -

Inferno astral

Foi uma semana da qual não sinto saudades mas não esqueço. Talvez algumas semanas. Eu só queria que passasse o mais rápido possível.

As coisas não estão legais, bem longe disso. Eu não sei o que é preciso pra ficar legal. E essa falta de conhecimento é mais do que um apelo. Sem metas, objetivos, sem alegria nem tristeza. Pra onde foi minha vontade de viver ou simplesmente de fazer alguma coisa? Nesse momento, eu apenas existo. Apenas sobrevivendo, o porquê ainda não se sabe.
Eu poderia estar transbordando como sempre, cheia de palavras, de visões, ideias explodindo na minha cabeça, com opinião pra tudo mas não. Só vazio. Um imenso, profundo e agoniante vazio. É sufocante. O vazio sufoca. Quanto mais tento respirar, sentir algum tipo de felicidade ou infelicidade, mais apertado fica, não conseguir encontrar o que me faça sair do lugar.
Onde está todo mundo? Por que eles me abandonaram? Eu não entendo.

110

As conversas não rendem mais. Os olhares saudosos se cruzam mas já não sentem mais nada. Já não sentem vergonha, já não sentem prazer. As mãos bobas deixaram de ser bobas. Tudo o que tinham pra dizer... tudo o quê mesmo?

Mas afinal, eles não eram um casal.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

mesmerize the simple minded, propaganda leaves us blinded

Apareceu uma preta do black na tv,
tem outra na propaganda de maquiagem
Minorias ganhando espaço na mídia, será miragem?

Senhores brancos e ricos mandam e desmandam no que podemos assistir
Você acredita que esses senhores se preocupam com você?
Se utilizam desses discursos de aceitação porque querem vender

Vender e ditar meu comportamento
Ser preta pode, mas tem que ser pop
militantes das causas certas não dá ibope

Falam em visibilidade... seria ingenuidade?
Só vejo todo mundo escravo consumindo banalidade
fazendo parte do problema, achando ser solução

Na sociedade perpetua a discriminação
não respeitam minha cor, minha raiz, minha dor
qualquer minoria continua sendo (mal)tratada como inferior

Do que me adianta aparecer na novela,
se o preconceito continua sendo nossa mazela?
Assédio moral, sexual, baixa auto-estima, violência policial reina na favela

Minha visibilidade sou eu mesma quem faço
sem precisar aparecer em nenhuma rede esgoto de televisão
Alguns tentam me humilhar, muitos veem com admiração

Só porque tomei a atitude destemida de me amar
e amando ao próximo enxerguei outras saídas
a luta nas ruas, organizando as famílias, é o que mudará nossas vidas





quinta-feira, 15 de setembro de 2016

~ Henry David Thoreau, “Walden” ou “A Vida nos Bosques”

“Com a minha experiência aprendi ao menos isso:
que se uma pessoa avançar confiantemente na direção de seus sonhos e se esforçar por viver a vida que imaginou, há de se encontrar com um sucesso inesperado das horas rotineiras.
Há de deixar pra trás uma porção de coisas e atravessar uma fronteira invisível; leis novas, universais e mais abertas começarão por se estabelecer ao redor e dentro dela; ou as leis velhas hão de ser expandidas e interpretadas a seu favor num sentido mais liberal, e ela há de viver com a aquiescência de uma ordem superior de seres.
A medida que ela simplificar sua vida, as leis do universo hão de parecer menos complexas, e a solidão não será mais solidão, nem a pobreza será pobreza, nem a franqueza, fraqueza.
Se construíres castelos no ar, não terá sido em vão seu trabalho; eles estão onde deviam estar. Agora colocai os alicerces por baixo.”