domingo, 7 de janeiro de 2018

poderia ser sobre paixão, mas é sobre admiração e amizade que também é amor

*dedico a Mib*
em Outros jeito de usar a boca de Rupi Kaur


terroristas de nós mesmos I

Uma insegurança que finge
ser segura onde está:
parada, imóvel, sem impulso.
Rotina; o pulso inerte da vida.

Desistência antes mesmo da tentativa,
planejamento que não vinga,
percepção submersa em morfina.
Uma manta de proteção vazia

Um passo a frente do adversário,
prevendo o resultado,
toma-se a melhor atitude:
permanecer-se parado.

Parece ajudar em evitar
que o imprevisível aconteça.
Uma jogada estratégica,
encenação amadora, peça por peça...

Ser firme em não ter opinião
para não ser contrariado.
Construir bases no nada
para não ser criticado.

Não tomar posição
é de bom grado
para espírito bitolado.
Abster-se é ser controlado.

Toda inação é ilusão,
falsa sensação de pertencimento.
O equilíbrio está justamente
no movimento:

Intervir, sugerir e resistir.

O que te move?
O que te leva a luta?
O que te traz à vida?
O que te sugere à morte?

Novos Poetas da Região Cacaueira (1982)

parte II

OS DIASAssim perdemos os sábados.
Deitados ficamos como um relógio imóvel
enquanto o tempo passa.
O tempo, impiedosa
fera, nunca espera
que se dê o último retoque
nas vestes.
Assim perdemos os dias.
Salvar a vida é segurar as horas.
Saltar de pé e acompanhá-las,
desnudo embora.  
CONSTRUÇÃOPalavra sobre palavra
levantarei o poema.
Levarei até às nuvens
asas e silvos deixados
por aves que me habitavam.
Pena sobre pena
pois construí-lo é mais
que contemplar o vário
e deitar-se ao largo.
Porém, seu contrário.
Palavra sobre palavra
lavrarei sua áspera
couraça de silêncio
mesmo que o tempo o destrua
como qualquer pedra. 
CIÊNCIAComo saber se é tarde ou manhã
quando as horas se evolam
nesse búzio imóvel
que nunca responde?
A poeira do mundo
invade a vida e convivemos
num formigueiro
que nos consome.
Como saber o que se esconde
se somos homens?
Apena sabemos
a falta, a fome. 
QUIMERAcheirar hálito
quente da manhã
caminhar sobre
arco-íris, levando
solidão nos bolsos,
sorrisos nos pés
e ressuscitar assim
a velha primavera:
solúvel quimera. 
GRITO DE POESIA quero a poesia
memória do meu tempo
grito de todas as dores
na boca do mundo esfarrapado
em trapos de amor
entre muros. 

[Carlos Roberto Araújo - Ibirapitanga]

sábado, 6 de janeiro de 2018

Largo do Peneireiro [para a Inês]


Tudo se perde, claro. Mas lembrarei
seguramente os olhos vermelhos
de um gato de Alfama e todos os poemas
que não escrevi contra mim próprio,
naquele pátio aberto a ciladas e dissipações.

Vinho tinto, charros, paixões escarnecidas
num diálogo de guitarras desatentas.
Tu fazias vinte e quatro anos, é certo,
e dizias com maior razão que aqueles olhos na noite
pertenciam a uma gata. Perdida, achada luz,

quando se percebe o desabrigo, a difícil
pertença a esta espécie de gente,
comunidade de louco deserdados a que
o empregado, de bigode, chamou
«o pessoal da bebedeira». Porque isto
que não passa, sabemo-lo bem, é a vida

ou a morte, uma perda que dura
e que não se apaga assim, sob um cerco
de navalhas ou de inúteis, vigorosos
sentimentos. Por exemplo o amor,
essa estranha mistura de angústia, desejo
e novamente angústia. O não apenas sexo
de adormecer em braços reais
que afastem para sempre o mundo.

Mas acabo por subir cambaleante as escadas
à hora em que o vizinho de baixo
se prepara para ser uma pessoa altamente
honrada, no talho de bairro
que lhe dá sentido aos dias.

E não é dor, nem prazer, nem
ressentimento o que um corpo
sente, às seis da manhã, prostrado
na lama involuntária destes versos.
Antes um vazio imperfeito, uma
ferida sem lugar que nenhuns lábios,
sequer os teus, saberiam calar.

Fizeste, já disse, vinte e quatro anos.
Não esperes grande coisa da felicidade.

[Manuel de Freitas]

Amor Verdadeiro - Eugénio de Castro

Tua frieza aumenta o meu desejo:
Fecho os meus olhos para te esquecer,
Mas quanto mais procuro não te ver,
Quanto mais fecho os olhos mais te vejo.

Humildemente atrás de ti rastejo,
Humildemente, sem te convencer,
Enquanto sinto para mim crescer
Dos teus desdéns o frígido cortejo.

Sei que jamais hei de possuir-te, sei
Que outro feliz, ditoso como um rei
Enlaçará teu virgem corpo em flor.

Meu coração no entanto não se cansa:
Amam metade os que amam com esperança,
Amar sem esperança é o verdadeiro amor.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

não tenho ambições, nem desejos.
ser poeta não é uma ambição minha,
é a minha maneira de estar sozinho.

↠↞

como uma criança antes de a ensinarem a ser grande,
fui verdadeiro e leal ao que vi e ouvi.

 - Alberto Caeiro 

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

- Quero você para sempre esta noite,

eu divido contigo minha angústia e o meu pão.




[Otto - O que dirá o mundo]

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Elif Shafak em "O poder revolucionário da diversidade do pensamento"

trocávamos sorrisos de simpatia; uma camaradagem dos condenados.

estrangeiros na própria pátria.


sábado, 23 de dezembro de 2017

De mim, de nós, do nada - Marsa

Santa, profana, de quem és?
Abre a cabeça
e finca os pés

Na imensidão,
no vão,
na alma

Brota do são,
é tão
que acalma

Tanto palavras, quanto sons
São quantas cores?
Quantos tons?

Partem de mim,
de nós,
do nada

Partem de mim,
de nós,
do nada.



online

manda nudes e poesia
a beleza do corpo
com a alma despida.
o lado que irradia
e a parte sombria.
por que se intimida
com o cru da vida?

Sangrando - Gonzaguinha

Quando eu soltar a minha voz
Por favor, entenda
Que palavra por palavra
Eis aqui uma pessoa se entregando

Coração na boca, peito aberto
Vou sangrando
São as lutas dessa nossa vida
Que eu estou cantando

Quando eu abrir minha garganta
Essa força tanta
Tudo que você ouvir
Esteja certa que estarei vivendo

Veja o brilho dos meus olhos
E o tremor nas minhas mãos
E o meu corpo tão suado
Transbordando toda a raça e emoção

E se eu chorar
E o sal molhar o meu sorriso
Não se espante, cante
Que o teu canto é a minha força
Pra cantar

Quando eu soltar a minha voz
Por favor, entenda
É apenas o meu jeito de viver
O que é amar

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Do CANTO III

72
Não vivo por mim mesmo. Sou só um
Elo do que me cerca, mas se a altura
Das montanhas enleva-me, o zum-zum
Das cidades humanas me tortura.
A criação só errou na criatura
Presa à carne, onde paro, relutante,
Buscando, libertada a alma pura,
Mesclar-me ao céu, aos montes, ao ondeante
Plaino do oceano, às estrelas, e ir adiante.

113
O mundo eu não o amei, nem ele a mim;
Não bajulei seu ar vicioso, nem dobrei
Aos seus idólatras o joelho do sim. –
Meu rosto não abriu risos ao rei
Nem repetiu ecos; a turba, eu sei,
Não me inclui entre os seus. Vivi ao lado
Deles, porém sem ser da sua grei;
E à mortalha da sua mente atado
Estaria se não me houvesse precatado.

114
O mundo eu não amei, nem ele a mim –
Bons inimigos, vamos sem rancor.
Não as achei, mas creio que há, enfim,
Palavras que são coisas, vi a cor
Da esperança e cheguei mesmo a supor
Virtudes sem perjúrio ou falsidade;
Nos prantos dos demais vislumbro dor
Em dois ou três, e penso, de verdade,
Que o bem pode existir e assim felicidade.

– Lord Byron
"Tudo se finge, primeiro; 
germina autêntico é depois."