sexta-feira, 26 de abril de 2019

Caranguejola

[...]

Quanto a ti, meu amor, podes vir às quintas-feiras,
Se quiseres ser gentil, perguntar como eu estou.
Agora no meu quarto é que tu não entras, mesmo com as melhores maneiras…
Nada a fazer, minha rica. o menino dorme. Tudo o mais acabou.

[Mário de Sá-Carneiro]

terça-feira, 2 de abril de 2019

Protelada

Consulta marcada após conseguir uma vaga em muitas semanas. Médica atrasada, era pra estar aqui ao meio-dia; são uma e vinte e até agora nada. Enquanto isso, do lado fora, esperando no calor, sentada na calçada, vejo um homem de muita idade revirando lixo, atrás de comida e alumínio em lata. Separa sacola por sacola, retira o que lhe convém, sem deixar a lixeira bagunçada. Tanto cuidado e apreço, imagino como foi sua vida sofrida, como está sendo essa falsa alforria de uma existência roubada. E como se não bastasse, ele canta feliz alguma canção que não consigo ouvir, alegria inexata. Deseja boa tarde a todos os enfermos da clínica, uma fala cínica de uma vida indigna, e se vai, some pela estrada. E o que eu vim fazer aqui? Ah sim, uma consulta médica, lida ingrata. Perguntei a secretária, disse que da gastro doutora esperava alguma desculpa por estar demorada, ou a resposta se ainda iria chegar, porque até agora nada.


finais felizes que não tive #2

domingo, 24 de março de 2019

tenho o desejo intrínseco

que vem de influências externas.

um devanear cínico
via contemplações terrenas

no meu despertar íntimo
uma angústia serena

por um olhar clínico
nos vejo atolados em mazelas

em estado crítico
alienados em telas e celas

então um sentimento impreciso
é me deixado como sequela

me submeter ao dever cívico
de sonhar a vida mais bela.

“Ban abatele; bana batelelwa”

“Onde há quem diz, deve se permitir que haja aquele que contradiz”, um dos princípios da democracia em Mbanza-kôngo, Angola; séc XVI e XVII.

(via: Por dentro da África)

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Mais uma de amores líquidos...

eu penso em você com todo apreço;
sinto um poema, leio uma música, te ofereço.
o não haver reciprocidade é o preço
pago.
apago mensagens
afago, sozinha, meu peito.
eu quero te incluir em tudo
sem medo,
fazer viagens, passeios, bobagens
mas para cada ideia, uma desculpa.
e ainda me faz sentir culpa.
sinto culpa e tédio.
você faz planos e não me diz
sua pouca ternura é o que condiz
com o meu exagerado apego.
paro e observo;
é o que eu mereço?
em bando, sou como um qualquer elemento
quando só, sirvo como objeto direto
do seu predicado carente de sujeito.
que tipo de consideração é essa?
uma hora banquete de festa,
outra hora refeição indigesta.
eis o meu apelo:
ó, coração, razão, sentimento
por que amar pra mim sempre é sofrimento?

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

in verdades

O certo me parece inalcançável
Tanto pelas altas expectativas,
Como pelas baixas estimas
De cada ser humano.

A verdade é adaptada
às circunstâncias, cada instância
Se mantém a distância
De sua essência inata.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Amei-te sem saberes

No avesso das palavras
na contrária face
da minha solidão
eu te amei
e acariciei
o teu imperceptível crescer
como carne da lua
nos nocturnos lábios entreabertos

E amei-te sem saberes
amei-te sem o saber
amando de te procurar
amando de te inventar

No contorno do fogo
desenhei o teu rosto
e para te reconhecer
mudei de corpo
troquei de noites
juntei crepúsculo e alvorada

Para me acostumar
à tua intermitente ausência
ensinei às timbilas

a espera do silêncio

– Mia Couto

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

quando se é jovem de periferia é comum

as sugestões pra vender,
guardar e transportar droga
chegam mais rápido

que ofertas de emprego,
estudo e capacitação
se é que essas chegam

independente da sua reação

de aceitar o caminho dito fácil
e virar mais um robozinho
do crime organizado

ou de renegar o óbvio destino
e construir outro significado
mesmo com duros obstáculos

esse momento é crucial na sua vida

te faz refletir
analisar o ser, o viver,
afinal, o que é preciso ter?

respeito comprado com dinheiro,
sossego produzido com trabalho,
e o medo?

#introdução à filosofia marginalizada 


sábado, 2 de fevereiro de 2019

A criança que ri na rua,

A música que vem no acaso,  
A tela absurda, a estátua nua,
A bondade que não tem prazo —
Tudo  isso excede este rigor
Que o raciocínio dá a tudo,  
E tem qualquer cousa de amor,  
Ainda que o amor seja mudo.

- Fernando Pessoa

domingo, 27 de janeiro de 2019

alegria do abandono

certas coisas prefiro
não enxergar

fingi não vi
fingi não sentir
fingi acreditar

fingir ser o melhor
pra mim
e esperar...

algo que não seja mentira
algo que não cause intriga
algo pra me libertar...

a forma como me tratas
tão rude
que não pude acatar

mais uma vez, mais uma farsa
me ilude
em virtude do amar

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Às vezes tenho ideias, felizes,

Ideias subitamente felizes, em ideias
E nas palavras em que naturalmente se despegam...
Depois de escrever, leio...
Por que escrevi isso?
Onde fui buscar isso?
De onde me veio isto? Isto é melhor do que eu...
Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta
Com que alguém escreve a valer o que nós aqui traçamos?...
_Álvaro de Campos

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Murmúrio

Traze-me um pouco das sombras serenas
Que as nuvens transportam por cima do dia!
Um pouco de sombra, apenas,
- vê que nem te peço alegria.

Traze-me um pouco da alvura dos luares
Que a noite sustenta no teu coração!
A alvura, apenas, dos ares:
- vê que nem te peço ilusão.

Traze-me um pouco da tua lembrança
Aroma perdido, saudade da flor!
Vê que nem te digo - esperança!
Vê que nem sequer sonho - amor!

Cecília Meirelles

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Porque os outros se mascaram mas tu não

Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.

= Sophia de Mello Breyner