quarta-feira, 10 de março de 2021

Inverno em Saturno

de ti só lembro
do pouco que foi bom
e do muito que não deu
tempo de ser. 


Davi Melo

PARA CADA UMA DE VOCÊS

Seja você mesma e aprenda a valorizar
Aquele impetuoso Anjo Negro
Que te eleva num dia
E te põe pra baixo no outro
Protegendo o lugar de onde seu poder emana
Correndo como sangue quente
De onde emana sua dor
 
Quando estiver com fome
Aprenda a comer
Qualquer coisa que te sustente
Até o amanhecer
Mas não se deixe enganar por detalhes
Apenas porque você os vive
Não deixe sua cabeça negar
Qualquer memória
Nem seus olhos
Nem seu coração
Tudo pode ser usado
Menos o dispensável
(Você precisara se lembrar disso
Quando acusada de destruição)
Mesmo quando forem perigosas, examine o coração das máquinas que você odeia
Antes de descarta-las
E nunca lamente sua falta de poder
A menos que esteja condenada a atenuá-las
Se você não aprender a odiar
Você nunca estará sozinha o suficiente
Para amar facilmente
Nem será corajosa o suficiente,
Embora isso não surja facilmente
 
Não finja ter crenças convenientes
Mesmo que elas pareçam certas
Você nunca defenderá sua cidade gritando.
 
Lembre-se de qualquer dor
Que surja do seu sonho
Mas não procure por novos deuses
No mar
Nem em qualquer parte de um arco-íris
Cada vez que amar
Ame profundamente
Como se fosse para sempre
Apenas o nada é eterno.
 
Fale com orgulho com suas crianças
Sempre que encontra-las
Diga-lhes que você é descendente de escravos
E que sua mãe foi uma princesa na escuridão.


JÁ


Poder da mulher
É
Poder Negro
É
Poder Humano
Sempre sinto meu coração bater
Enquanto meus olhos se abrem
Enquanto minhas mãos se movem
Enquanto minha boca fala
Eu SOU
Você É
Pronto.


QUEM DISSE QUE SERIA FÁCIL?

A árvore da raiva possui tantas raízes
Que os galhos despedaçam
Antes que se sustentem.
 
Sentadas em Nedicks
As mulheres se agrupam antes de marchar
Conversando sobre as garotas problemáticas
Que são contratadas para libertá-las.
Uma balconista quase branca
Passa e atende os irmãos primeiro.
E as mulheres não notam nem rejeitam
Os pequenos prazeres de sua escravidão.
Mas eu, que sou limitada pelo espelho,
Assim como pela minha cama
Vejo questões de cor e gênero.
 
E sento aqui me perguntando
Quem vai sobreviver a todas
Essas Libertações.

Audre Lorde

terça-feira, 9 de março de 2021

A Carolina


Querida, ao pé do leito derradeiro
Em que descansas dessa longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o coração do companheiro.

Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
Que, a despeito de toda a humana lida,
Fez a nossa existência apetecida
E num recanto pôs um mundo inteiro.

Trago-te flores, — restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa e separados.

Que eu, se tenho nos olhos malferidos
Pensamentos de vida formulados,
São pensamentos idos e vividos.

Machado de Assis, publicado no livro Relíquias de Casa Velha (1906).

quarta-feira, 3 de março de 2021

 “Não só de pão vive o homem. Eu se tivesse fome e estivesse à míngua na rua não pediria um pão; pediria meio pão e um livro.”

– García Lorca.

terça-feira, 2 de março de 2021

Com unhas e dentes

 Estar vivo
é abrir uma gaveta 
na cozinha,
tirar uma faca de cabo preto,
descascar uma laranja.
Viver é outra coisa:
deixas a gaveta fechada
e arrancas tudo
com unhas e dentes,
o sabor amargo da casca,
de tão doce,
não esqueces.


Luís Filipe Parrado

Não faças de ti


Um sonho a se realizar.
Vai. Sem caminho marcado.
Tu é o de todos os caminhos.
Sê apenas uma presença.
Invisível presença silenciosa.
Todas as coisas esperam a luz,
sem dizerem que a esperam.
Sem saberem que existe.
Todas as coisas esperarão por ti,
Sem te falarem.
Sem lhes falares. 

Cecília Meireles


domingo, 14 de fevereiro de 2021

em Revista Gueto

E as rosas mínimas almas?
E os espinhos mínimas prisões?
Cada jardim é um mundo
Guardado por metáforas
Chuviscado de poesia
E ainda há os que dizem
Que a vida é fria

---


Madrugada esfoliada
Acossada por cenas intensas
A espiar da janela
A cena molhada:
As rosas fazendo sexo
— despudoradamente —
Diante dos lírios da paz


| Bárbara Lia #breves


19 de novembro de 1957

Caro Monsieur Germain,


Deixei que passasse um pouco o movimento que me envolveu todos esses dias antes de vir-lhe falar-lhe de coração aberto. Acaba de me ser feita uma grande honra que não busquei, nem solicitei. Mas quando eu soube da novidade, meu primeiro pensamento, depois de minha mãe, foi para você. Sem você, sem essa mão afetuosa que você estendeu ao menino pobre que eu era, sem seu ensino, sem seu exemplo, nada disso teria acontecido. Eu não faço questão dessa espécie de honra. Mas essa é ao menos uma ocasião para dizer-lhe o que você foi e é sempre para mim, e para assegurar-lhe que os seus esforços, o seu trabalho e o coração generoso que você coloca em tudo que faz, sempre de maneira viva com relação a um de seus pequenos discípulos que, não obstante a idade, não cessou jamais de ser seu aluno reconhecido. Eu o abraço com todas as minhas forças.


Albert Camus


sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

É verdade que sinto

É verdade que sinto um imenso desprezo
pelos poetas. Por todos os poetas.
Esses seres ignóbeis que escrevem
a palavra «estrela» e uma estrela, de súbito,
nos queima os dedos distraídos. Uma
vez esteve aqui um poeta. Escreveu
a palavra «labareda». E ainda hoje as manchas
do fogo sujam as paredes e os
mosaicos vidrados da sala de reuniões
do Conselho de Administração.

José Carlos Barros

Contra a corrente

 não existiu

já um

que andava sobre as águas?

Ninguém mais

conseguiu fazer o mesmo


mas 

que tu

uma não-nadadora

nades contra a corrente

não é um milagre menos significativo. 


- Kurt Marti

O leão e o autocontrole

[...] O leão é você mesmo, assim como o cordeiro é você mesmo. Não é preciso ter medo do leão quando ele está sob seu domínio.

— Por Outis 

Uma gota de água

 Uma gota de água
é o suficiente para que um sonhador
- que a tem na sua mão - 
acredite que possui
todo o mar.

Ela é suficiente, 
ele afoga-se.

François Rossel

Adiamento

Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã…
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não…
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico…
Esta espécie de alma…
Só depois de amanhã…
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte…
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos…
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã…
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro…
Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã…
Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância…
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital…
Mas por um edital de amanhã…
Hoje quero dormir, redigirei amanhã…
Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo…
Antes, não…
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã…
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã…
Sim, talvez só depois de amanhã…
O porvir…
Sim, o porvir…

14.4.1928

Durmo, cheio de nada, e amanhã

Durmo, cheio de nada, e amanhã
É, em meu coração,
Qualquer coisa sem ser, pública e vã
Dada a um público vão.
O sono! este mistério entre dois dias
Que traz ao que não dorme
À terra de aqui visões nuas, vazias,
Num outro mundo enorme.
O sono! que cansaço me vem dar
O que não mais me traz
Que uma onda lenta, sempre a ressacar,
Sobre o que a vida faz?!

11.12.1933

– Álvaro de Campos