terça-feira, 1 de novembro de 2016

Colam-se corações partidos

não oferecemos o amor da sua vida
nem um relacionamento sério duradouro
nem desilusões disfarçadas de planos

não queremos que crie expectativas
nem que sonhes acordada pra depois, com dissabor,
ficar se perguntando se tudo aquilo vivido teve real valor

picolé de chocolate com pedaços pra sarar essa febre romântica
oferecemos cafuné e conversas bobas ao pôr-do-sol
tem brincadeiras pra rir e pra suar o lençol 

se sua dor diminuir com essas andanças
acompanhamos em caminhadas pela praia
ou num xadrez na mesa da praça

viajamos por lugares rotineiros
vivemos de meros devaneios
dançamos no ritmo do vento

dançamos no cair da chuva
tomamos banho de mar
também nos banhamos sob a luz da lua

rimos de piadas que não tem graça
contamos outros causos em desgraça
pra te ver sorrir, vale qualquer palhaçada

quando se sentir melhor, é aí que viramos pó
compromisso é responsabilidade demais
não se promete aquilo de que não é capaz



quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Pensei

Que querias tanto quanto eu e
Que serias todo o meu querer
Em um só ser

Senti
Que podia confiar nesse querer
Que podia me entregar a você
Sem me perder

Sonhei
Com um amor recíproco
Não só no sentimento de querer estar junto
Mas no fazer acontecer estar junto e estar bem

Me equivoquei, meu bem.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

"Eles têm razão,

essa felicidade
ao menos com maiúscula não existe.
Ah, mas se existisse com maiúscula
seria semelhante à nossa breve pré solidão.
Depois da alegria a pré solidão,
depois da plenitude vem a solidão,
depois do amor vem a solidão.

Sei que é uma pobre deformação,
mas o certo é que nesse minuto duradouro
nos sentimos sós no mundo,
sem ocasiões,
sem pretextos,
sem abraços,
sem rancores,
sem as coisas que unem ou separam.

E nessa única forma de estar só
nem sequer nos apiedamos de nós mesmos.
Os dados objectivos são como seguem:
há dez centímetros de silêncio
entre tuas mãos e minhas mãos,
uma fronteira de palavras não ditas
entre teus lábios e meus lábios,
e algo que brilha assim de triste
entre teus olhos e meus olhos.

Claro que a solidão não vem só,
se olhamos sobre o ombro triste
de nossa solidão
se verá um largo e compacto impossível,
um simples respeito por terceiros e quartos
esse transtorno de ser boa gente.

Depois da alegria,
depois da plenitude,
depois do amor
vem a solidão!

De acordo,
mas que virá depois
da solidão?

Às vezes não me sinto tão só...
se imagino
melhor dito, sei
que além da minha solidão
e da tua
outra vez estás vós
ainda que perguntando-me a sós
que virá depois da solidão?"

- Mario Benedetti -

Inferno astral

Foi uma semana da qual não sinto saudades mas não esqueço. Talvez algumas semanas. Eu só queria que passasse o mais rápido possível.

As coisas não estão legais, bem longe disso. Eu não sei o que é preciso pra ficar legal. E essa falta de conhecimento é mais do que um apelo. Sem metas, objetivos, sem alegria nem tristeza. Pra onde foi minha vontade de viver ou simplesmente de fazer alguma coisa? Nesse momento, eu apenas existo. Apenas sobrevivendo, o porquê ainda não se sabe.
Eu poderia estar transbordando como sempre, cheia de palavras, de visões, ideias explodindo na minha cabeça, com opinião pra tudo mas não. Só vazio. Um imenso, profundo e agoniante vazio. É sufocante. O vazio sufoca. Quanto mais tento respirar, sentir algum tipo de felicidade ou infelicidade, mais apertado fica, não conseguir encontrar o que me faça sair do lugar.
Onde está todo mundo? Por que eles me abandonaram? Eu não entendo.

110

As conversas não rendem mais. Os olhares saudosos se cruzam mas já não sentem mais nada. Já não sentem vergonha, já não sentem prazer. As mãos bobas deixaram de ser bobas. Tudo o que tinham pra dizer... tudo o quê mesmo?

Mas afinal, eles não eram um casal.

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

mesmerize the simple minded, propaganda leaves us blinded

Apareceu uma preta do black na tv,
tem outra na propaganda de maquiagem
Minorias ganhando espaço na mídia, será miragem?

Senhores brancos e ricos mandam e desmandam no que podemos assistir
Você acredita que esses senhores se preocupam com você?
Se utilizam desses discursos de aceitação porque querem vender

Vender e ditar meu comportamento
Ser preta pode, mas tem que ser pop
militantes das causas certas não dá ibope

Falam em visibilidade... seria ingenuidade?
Só vejo todo mundo escravo consumindo banalidade
fazendo parte do problema, achando ser solução

Na sociedade perpetua a discriminação
não respeitam minha cor, minha raiz, minha dor
qualquer minoria continua sendo (mal)tratada como inferior

Do que me adianta aparecer na novela,
se o preconceito continua sendo nossa mazela?
Assédio moral, sexual, baixa auto-estima, violência policial reina na favela

Minha visibilidade sou eu mesma quem faço
sem precisar aparecer em nenhuma rede esgoto de televisão
Alguns tentam me humilhar, muitos veem com admiração

Só porque tomei a atitude destemida de me amar
e amando ao próximo enxerguei outras saídas
a luta nas ruas, organizando as famílias, é o que mudará nossas vidas





quinta-feira, 15 de setembro de 2016

~ Henry David Thoreau, “Walden” ou “A Vida nos Bosques”

“Com a minha experiência aprendi ao menos isso:
que se uma pessoa avançar confiantemente na direção de seus sonhos e se esforçar por viver a vida que imaginou, há de se encontrar com um sucesso inesperado das horas rotineiras.
Há de deixar pra trás uma porção de coisas e atravessar uma fronteira invisível; leis novas, universais e mais abertas começarão por se estabelecer ao redor e dentro dela; ou as leis velhas hão de ser expandidas e interpretadas a seu favor num sentido mais liberal, e ela há de viver com a aquiescência de uma ordem superior de seres.
A medida que ela simplificar sua vida, as leis do universo hão de parecer menos complexas, e a solidão não será mais solidão, nem a pobreza será pobreza, nem a franqueza, fraqueza.
Se construíres castelos no ar, não terá sido em vão seu trabalho; eles estão onde deviam estar. Agora colocai os alicerces por baixo.”

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

provaremos as ilhas e o mar

sei que em alguma noite

em algum quarto
logo
meus dedos abrirão
caminho
através
de cabelos limpos e
macios

canções como as que nenhuma rádio
toca

toda a tristeza, escarnecendo
em correnteza.


li Bukowski, pensei em Ribas.  

Mormaço

Promessas do descaso:
Uma educação que não me prepara para a vida,
Informações inúteis para o meu dia-a-dia,
Um governo que não se dá ao trabalho
de se preocupar com seus governados.
Vivem no consumo exagerado, desavisados
Só percebem o mal quando já foi feito o estrago.

do progresso ao atraso:
Plantar árvore faz nascer agua, disso eu não sabia
A tv que me faz de bobo da corte todo santo dia
Entre verdades covardes e mentiras, põe a culpa no clima;
Esconde os grandes empresários desmatando,
Sonega  as grandes empresas desperdiçando
Os recursos que em nossas casas estão faltando.

súplica ao acaso:
Tomando banho de água salgada no chuveiro
Quando cai água é correria o dia inteiro
Sobe, olha o tanque, doloroso vazio
Desce, bate bomba, esperança sem fastio
Será que o céu não se comove?
A dúvida assusta, nessa lógica injusta,

dia lindo é quando chove.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Ítalo Calvino em As Cidades Invisíveis

- O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço. 

às vezes fico pensando...

a violência me faz meditar
entrar no profundo eu
percebendo as coisas a me circular
e a maneira como estão organizadas
e então encontrar outra maneira
de desorganizá-las

enquanto a passividade me revolta
observo a falta de ação do nós
facilmente corruptíveis
minimamente satisfeitos
comumente acomodados
reféns do destino que outros escolheram

me preocupa estarmos ocupados
com futilidades
me ocupa estar preocupada
em achar soluções
ansiosa para que o novo venha logo
desejando um salto de evolução
em cada indivíduo
buscando a revolução social
para o bem estar geral

pergunto aos astros, à lógica
aos pensadores antigos
porque é fácil pra mim perceber a tudo isso
e dificil a todos eles refletirem sobre isso
deixando o velho pra trás
por que perder tempo tentando melhorar
algo que já experimentamos não ser bom
nem fácil de mudar?

a resposta vem sendo mostrada aos poucos
pessoas se distanciando da sociedade
em valores e princípios e verdades
em vilas e comunidades sustentáveis
usando o melhor da sapi-ciência
para o bem maior da existência


quarta-feira, 24 de agosto de 2016

pelo direito de ser um deus. esse direito agora é meu.


Somos a parte do universo que se tornou consciente de si mesma. Não sei se é a verdade, mas é uma verdade que uso para me engrandecer, para me orgulhar e não me entregar.

Me entregar a quê?
A essa insanidade lúcida que é a sociedade: acordar cedo pra ficar dez horas trabalhando, ter uma vida mediocremente confortável sem reclamar, ou até reclamando, mas sem fazer nada a respeito.
Ou a essa lucidez insana que é estar desajustado e até conseguir lutar contra o preconceito, contra o pensamento e comportamento padrão, mas se sentir perdido a ponto de não mais suportar esse fardo e se jogar em tentação.

Porque outra verdade que tomo como minha é que se você olha para o abismo, ele olha direto pra você. E esse convite de voltar ao nada é tão tentador como o de ser o tudo. E apesar de ter esses pensamento obsessivos, de estar em constante flerte com a morte e me considerar uma suicida em potencial, nunca cheguei perto de tentar nada.

Por orgulho.
Gosto tanto de pensar que sou dona de mim mesma, que, por saber que as maiorias das decisões da minha vida não dependem de mim, mas de outros que nem sabem da minha existência, me sinto um tanto aliviada por só eu mesma controlar minha mente.
E tudo que se torna nocivo a mim, eu os culpo. Se tenho essa vontade mortal, é culpa deles. E por causa deles, eu não vou sucumbir, não. Através deles que eu vou expandir. Usando-os para evoluir.

Chego a pensar que o suicídio é um luxo, vaidade. Coisas que não tenho. Pessoas dependem de mim. São nessas pessoas que penso quando não sei mais o que pensar.
Os pensamentos ruins, meus monstros internos sempre me acompanharão, eu sei, mas nunca tomarão a frente de controle. nunca. Me usem. me estuprem. me espanquem; mas só me derrubarão se eu me deixar ser derrubada.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Slam #1

Antiquados

Por uma injustiça histórica,
o negro foi escravizado, animalizado
"Raça inferior e amaldiçoada"
Argumentos de uma religião controlada
E de uma ciência privatizada
Era colonial, racismo atemporal, fruto do capital
Para alguns lucrarem, muitos devem ir mal
Branco europeu pra cá veio explorar
Negro africano, coagido, veio de lá
Marginalizado, sem política social
Morrendo nas periferias, como se fosse banal
Sem escola, nem universidade
Sem bons empregos... nenhuma novidade
Racista se diz superior, pensamento alienado
Na real, preto é só uma cor, mas traduz a dor
De quem precisa ser explorado, condenado
Pros senhores continuarem no pecado
Do consumo exagerado e do ócio privador

Dinheiro manchado de sangue
pra suprir comodidades
O ouro reluz, seduz, mas não se engane,
quanto maior a riqueza, maior a crueldade
Um sistema que me impõe conceitos ultrapassados
Me quer condenada ao antiquado
Um passado que não passou,
pelos grandes burgueses se instalou
Nas mentes pequenas de quem se acomodou
A PM que só violenta preto e pobre:
Esse alto índice de morte é fascismo
Irmãos sofrendo nas mãos do racismo
Meu campo de batalha é a rua
Sou mulher, negra, periférica, essa é a minha luta
A polícia quer me coagir, o Estado, me punir 
E a mídia quer me confundir
mas sou dona de mim,me livrei do mercado
Não tenho preço, meu prazer não é pecado
Longe de esteriótipos, não sou santa nem puta
Pensamento limitador não condiz com minha conduta
De consciência tranquila, alma leve, continuo atuando
Corpo fechado, mente aberta, sexo pulsando
Não vou me deixar escravizar, tampouco me padronizar
Pela ditadura estética que só quer me clarear
Orgulho de África, aceito minha raiz
Levanto a cabeça, não vou sucumbir
Viver e não ter a vergonha de ser feliz...