segunda-feira, 16 de novembro de 2020
No Templo do Cimo
"A diminuição da miséria mental dos desenvolvidos
o problema da miséria material dos subdesenvolvidos.
Mas é justamente desse subdesenvolvimento
mental que não conseguimos sair, é dele que não
temos consciência".
quinta-feira, 15 de outubro de 2020
As mortes
Aos dezesseis anos
um dos meus melhores amigos do colégio
deu um tiro na cabeça
por causa de uma decepção amorosa.
Aos trinta e nove
o meu professor de literatura mais admirado
morreu de hipotermia num rio,
para salvar seu cão que estava a afogar-se
sob uma enganadora capa de gelo.
Aos quarenta e quatro
um poeta norte-americano que acabava
de conhecer desapareceu pra sempre
numa remota ilha ao sul do Japão
para ver de perto a boca de um vulcão.
Muitos dirão com sangue frio
que a impaciência do primeiro,
a extrema confiança do segundo
ou a ação imprudente do terceiro,
foram a causa determinante
como se sua explicação pudesse alterar
os resultados.
Ao longo da vida
vamos acumulando mortes
e começamos a pensar sem querer
em qual delas será a nossa,
se será por amor, Sergio, por lealdade,
Eduardo, ou por valentia,
Craig.
-Ramón Cote
quarta-feira, 7 de outubro de 2020
aquelas 3 perguntas para não esquecer de me amar mais.
Eu mereço isso?
Eu preciso disso?
É justo comigo?
quarta-feira, 30 de setembro de 2020
Descompasso
um céu auto-estereograma
terça-feira, 29 de setembro de 2020
Organizações de-cima-para-baixo
- Ashanti Alston
quarta-feira, 23 de setembro de 2020
De amor tenho vivido
Não tem nome.
A minha fala de amor
Não tem segredo.
Perguntam-me se quero
A vida ou a morte.
E me perguntam sempre
Coisas duras.
Tive casa e jardim.
E rosas no canteiro.
E nunca perguntei
Ao jardineiro
O porquê do jasmim.
- Sua brancura, seu cheiro.
Queiram-me assim.
Tenho sorrisos apenas.
E o mais certo é sorrir
Quando se tem amor
Dentro do peito.
Hilda Hilst
sábado, 12 de setembro de 2020
utopia
além daqui
fora de mim
mas a negação não impede
a beleza da imaginação
de me confortar.
o mundo não ocorre aos planos
escorro aos prantos
no fim, que valor terá?
sexta-feira, 11 de setembro de 2020
Sozinho no Japão na véspera de Natal
Não querendo perder tudo para a poesia.
Querendo viver vivendo. Por todo este ano
olhando para o cemitério abaixo do meu apartamento.
Docemente me controlando neste corpo arruinado.
Imaginando se a calma que eu sinto é a felicidade
da qual as pessoas inteligentes falam, ou a mudança
que é aceitação do começo da morte.
Um ano depois
Para Linda Gregg
Dessa distância eles são insignificantes
parados junto ao mar. Ela, de vestido branco
chora, e o casamento está quase acabado,
depois de oito anos. Em volta está o
lado plano e inabitado da ilha. A água
está azul no ar da manhã. Eles não sabiam que
isso ia acontecer quando vieram, apenas os
dois e o silêncio. Uma pureza que se parecia
com a beleza e que era difícil demais para as pessoas.
Chuva
De repente este revés.
Esta chuva.
Os azuis virando cinza
e amarelo
um terrível âmbar.
Nas ruas geladas
o seu corpo quente.
Em um aposento qualquer
o seu corpo quente.
No meio de todas as pessoas
a sua ausência.
As pessoas que são, sempre
sem ser você.
Eu tenho me dado bem com as árvores
por muito tempo.
Muito próximo às montanhas.
A felicidade tem sido um hábito.
E agora
de repente
esta chuva.
Alba
Depois de um verão com pessoas felizes,
eu corro de volta, apavorado, pondo
goela abaixo a dor onde quer que a encontre.
Jack Gilbert
quinta-feira, 27 de agosto de 2020
feita de instantes
a mágoa presa na garganta do que se foi
a saudade antiga do que ainda não se viveu
o silêncio agudo que me atravessou o peito
o grito mudo do que ficou por dizer
o pensamento ínfimo que me acalmou
o novo sentimento sob velhas auroras
o clima ameno depois que o sol se pôs
o horizonte em raios de luz que resiste ao breu
a culpa honrosa que julga defeitos
a fala misericordiosa que veio acolher
o beck aceso na roda que me iluminou
a ideia mirabolante que surgiu
uma nova ideia que me fez esquecer
da dor, da anterior, da flor
o delírio em que eu estava entretida
o devaneio que me fizera perder o ponto
o ponto em que eu ia descer do ônibus
3 500 km/h
- dizem que - bela, mas sobretudo, calma
há árvores que brilham sob a luz do sol
há uma brisa que fazem suas folhas dançarem
ao som do vento escuto amenidades
gostaria de viver isenta pela eternidade
o céu azul claro com poucas nuvens
o dia claro e apesar disso faz frio,
gosto de dias assim, me sinto bem
e sinto um vazio...
de repente, como uma bala perdida
imagens atravessam minha mente
autoridades máximas do meu país
brancos bebem seus copos de leite
pretos sucumbem em seus corpos inertes
como alvos ou massa de manobra no front
guerras repetidas, palavras pertinentes
histórias cruéis de sofrimentos vãos
pelo bem maior do ego, podres poderes
e eu com isso?
é que não consigo ser omissa
é que não me misturo com covardes
que de longe acenam e fingem não ver,
que de perto encenam seu ouro de tolo
tento não me envolver, mas sempre me sujo
sangro o mesmo sangue, me dói a mesma dor
sei que não é fácil, me inspira à coragem
eis a verdade que é minha e a protejo.
e assim mudo rapidamente de desejo,
insubmisso.
POEMA QUE ACONTECEU
nenhum problema nesta vida
o mundo parou de repente
os homens ficaram calados
domingo sem fim nem começo.
A mão que escreve este poema
não sabe o que está escrevendo
mas é possível que se soubesse
nem ligasse.
Amar o perdido
Não facilite com a palavra amor.
SEGREDO
Além da terra, além do céu
++ Carlos Drummond de Andrade